(talvez não) Vai ficar tudo bem
- Rodrigo Dotti

- 16 de fev.
- 2 min de leitura

Tem horas que tudo que a gente quer é escutar alguém dizer “vai ficar tudo bem”. Ainda mais se for de alguém que amamos, ou que nos conforta. Ou mesmo aquele amigo que não sabe o que dizer e acaba recorrendo a essa frase.
E sim, às vezes é bom escutar isso de alguém. Exceto se essa pessoa for seu psicólogo.
Muita gente começa a terapia esperando acolhimento, alívio e conforto imediato. E, de fato, eles podem acontecer. Há sessões em que você sai mais leve, com a sensação de ter organizado algo por dentro. Mas isso não é a regra do processo terapêutico. É mais como se fosse um efeito colateral, na realidade.
A parte da terapia que realmente produz mudanças significativas não costuma ser confortável.
O processo da psicanálise é falar sobre aquilo que você não quer (e provavelmente nem percebeu ainda). É lidar com a falta. Com as fantasias que você criou pra fugir da realidade. Com aquilo que você não dá conta (e perceber que nunca vai dar mesmo).
Nem preciso dizer o quanto isso é difícil, não é mesmo?
É mais confortável lidar só com a parte que alivia, mesmo que a gente saiba que só estamos empurrando com a barriga, como normalmente fazemos boa parte do tempo.
Por isso, uma das coisas que você menos precisa na análise é de uma promessa.
“Vai ficar tudo bem” pode soar como cuidado, mas também pode se transformar em uma garantia impossível.
Nenhum profissional da saúde mental pode prever o futuro. Nenhum psicólogo sério trabalha oferecendo finais felizes.
Talvez algumas coisas deem errado.
Talvez certas perdas sejam inevitáveis.
Talvez a vida não se organize como você imaginou.
E a psicanálise não está aí para negar isso.
Ela está para sustentar você diante do que não tem garantia.
Para ajudar você a atravessar o que é real. Sem anestesia, mas também sem solidão.
Fazer análise é algo sério. Exige compromisso. Exige responsabilidade com a própria história. Exige coragem para buscar algo que você ainda não sabe exatamente o que é, mas sente que precisa encontrar.
A terapia não promete conforto constante.
Promete trabalho. Promete implicação. Promete transformação possível, quando há disposição para encarar o que aparece.
E você não estará sozinho nesse processo.


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