A Psicanálise é para mim?
- Rodrigo Dotti

- 28 de jan.
- 3 min de leitura
“Quem faz um tratamento psicanalítico está falando consigo mesmo por meio de alguém que lhe empresta seu ouvido, que lhe dedica tempo, que é o camaleão das relações passadas”
Françoise Dolto

Para quê serve uma análise/terapia?
Creio, com base em minhas experiências como analista e como analisando, que essa é uma pergunta interessante de ser feita por quem está considerando passar por esse processo. Escolho colocar as palavras “análise” e “terapia” juntas porque percebo que, para muitas pessoas que não têm um conhecimento específico sobre psicanálise, esse processo recebe simplesmente o nome de terapia.
E tudo bem.
Existem, sim, muitos momentos que são terapêuticos em uma análise. Momentos de alívio, de acolhimento, de organização do que antes estava confuso. Mas, diferentemente do que costuma acontecer em uma terapia, a análise não se encerra aí. Em algum ponto, ela vai além.
Essa ideia de “ir além” ajuda bastante a entender o que acontece não só em um processo analítico, mas também com quem ainda está em dúvida se deve ou não embarcar nisso. Ao longo dessa conversa que estamos tendo aqui, explico melhor o que quero dizer com isso.
As pessoas chegam à análise em momentos muito diferentes da vida. Talvez o mais comum seja quando uma angústia se torna insuportável, a ponto de alguém procurar ajuda quase de forma desesperada. Pode ser por conta de uma perda, de questões no relacionamento, conflitos pessoais, dilemas antigos, traumas, dificuldades com os outros ou até consigo mesmo. Tudo isso pode encontrar um espaço de escuta e acolhimento na clínica, possibilitando a elaboração de formas menos dolorosas de lidar com essas questões. A vida costuma ficar um pouco mais leve quando a gente finalmente começa a se escutar.
Isso não significa, porém, que a análise seja apenas um caminho tranquilo. Em alguns momentos, aparecem espinhos. Em outros, surgem partes nossas que não agradam muito. Às vezes, cai a fantasia de que só por estar em análise os problemas vão desaparecer magicamente. Quando esse momento chega, atravessar os espinhos pode ser doloroso, mas também necessário. E atravessar não significa estar abandonado nesse percurso.
Aqui, faço um parênteses pessoal. Costumo dizer que me sinto bastante lisonjeado pela minha profissão. Cada pessoa que chega até mim é única. Existe algo muito particular nesse encontro, como a sensação de mergulhar em uma história que vai se revelando aos poucos, quase como quando um livro nos captura e nos faz perder a noção do tempo.
Outro momento comum de chegada à clínica acontece a partir de uma inquietação. Não é exatamente sofrimento intenso. É algo difícil de nomear. Uma sensação de que falta alguma coisa. Uma vontade de ir além. Além da ansiedade. Além do autoconhecimento. Além daquilo que já se sabe sobre si. Às vezes, nem se sabe aonde se quer chegar, mas existe a certeza de que não dá mais para permanecer parado. O movimento, por si só, já produz um efeito de vida.
Gosto de pontuar também um outro efeito possível em um setting analítico. Abre-se ali um espaço para colocar em palavras aquilo que nunca conseguiu ser dito. Talvez para ninguém. Talvez nem para si mesmo. Pode parecer assustador no início, mas é importante lembrar que não se trata de um espaço de julgamento, nem de conselhos, muito menos de receitas sobre como viver. Trata-se de um espaço em que é possível simplesmente ser.
Quando paramos para olhar com mais atenção, chega a ser curioso perceber como quase não temos, na vida cotidiana, um espaço assim. Estamos o tempo todo nos adaptando a pessoas, contextos e expectativas, a ponto de, em alguns momentos, nos afastarmos bastante de quem somos.
Outro ponto que pode surgir na análise é o encontro com o desejo. Em Cartas a um jovem terapeuta, Contardo Calligaris escreve que a terapia tem a tarefa de levar o paciente a reconhecer seu desejo, condição necessária tanto para praticá-lo quanto para contê-lo ou até descartá-lo. Esse trecho diz muito sobre o que pode acontecer quando alguém passa a não ignorar aquilo que o move.
Se alguns dos pontos que trouxe aqui falaram com você, se repetir padrões já não faz sentido, se respostas prontas parecem insuficientes e existe um desejo de elaborar o que te atravessa, talvez a psicanálise possa oferecer um espaço possível.
Um espaço para ter voz.
Para ser escutado.
Talvez a psicanálise seja para você.
Alguns livros que atravessam esse texto:
SUY, Ana. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Paidós, 2022.
(Obra na qual aparece a citação atribuída a Françoise Dolto utilizada neste texto.)
CALLIGARIS, Contardo. Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. São Paulo: Editorial Paidós/Elsevier, 2007.


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